Novo disco de Hermeto Pascoal marca volta ao estúdio de seu grupo

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Compositor não lançava um álbum com a formação desde 2002
hermeto pascoal
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RIO - O álbum “No mundo dos sons” (Selo Sesc), de Hermeto Pascoal & Grupo, marca o retorno aos estúdios dessa formação depois de 15 anos — o lançamento anterior deles havia sido “Mundo verde esperança”, de 2002. A primeira pergunta da entrevista com o músico é simples: por que a demora? A resposta passa pelos mil projetos (discos com outras formações e shows), mas o raciocínio de Hermeto segue os mesmos caminhos imprevisíveis de sua música.

— Fiquei sem gravar com o Grupo pra dar tempo para o público e a imprensa do Brasil e do mundo inteiro aos trabalhos que já estavam saindo. Se eu já gravo um em cima do outro vai embananando. E quero que o disco faça sucesso. Essa música que faço, universal, é tida como hermética por alguns, mas acho que é só porque meu nome é Hermeto. Ela pode ser superpopularizada. Onde toco, está sempre lotado. Enfim, não foi porque eu quis demorar. Nem por que eu não quis — sintetiza o músico.

A produção ininterrupta de Hermeto, aos 81 anos, não permitiu que o disco chegasse sozinho neste segundo semestre. Além do show que ele faz hoje no Blue Note (às 20h e às 22h30m) com o guitarrista Heraldo do Monte — marcando o reencontro histórico dos fundadores do Quarteto Novo —, há dois discos no forno. Um deles é “Hermeto Pascoal & Big Band”, projeto aprovado pelo edital Natura Musical. O outro é “Viajando com o som”, disco gravado em dois dias de 1976 no estúdio paulistano Vice Versa, de Rogério Duprat, e perdido desde então. Reencontrado e restaurado, o disco sai em novembro pela gravadora britânica Far Out.

“No mundo dos sons” foi todo construído a partir da intimidade musical de Hermeto com os músicos Itiberê Zwarg (baixo), Fabio Pascoal (seu filho, na perecussão), André Marques (piano e teclado), Ajurinã Zwarg (bateria) e Jota P. (sopros). Juntos, eles viajaram em torno das ideias do mestre (compositor e arranjador das 17 faixas).

— Nesse trabalho, toco poucas vezes. Não atuo muito como instrumentista porque justamente quero que as pessoas prestem bem atenção no meu lado de arranjador e compositor, do qual pouca gente fala — diz Hermeto, que tenta explicar como funciona seu método de composição. — Escrevo música como escrevo uma carta pra um amigo, uma pessoa. Me lembro do tempo antigo, que nem é antigo, porque a gente chama de antigo mas as coisas boas são sempre do presente.

HOMENAGEM AO BISNETO MORTO AOS TRÊS ANOS

O compositor espalha homenagens pelo disco. Quase todas as faixas fazem referência a alguém ou a algum lugar — cujo estilo ou espírito é evocado na música: “Um abraço Chick Corea”, “Viva Edu Lobo!”, “Carlos Malta tupizando”, “Viva Piazzolla!”, “Para Tom Jobim”, “Salve, Pernambuco percussão!”... Mas ele conta que não fez as músicas pensando nos homenageados.

Em meio a muitos amigos lembrados, o tributo mais profundo — e talvez o mais bonito — é “Rafael amor eterno”, feito para seu bisneto, morto aos três anos. Enquanto o piano de André Marques conduz a faixa com ternura, Hermeto toca chaleira, apitos e boneco. Em determinado, ouve-se uma gravação da voz do menino.

— Ele foi embora como um santo — lembra o compositor. — Lembramos com alegria dele, porque espírito não gosta de tristeza.

No disco, Hermeto reproduz em “Som da aura” a experiência que criou na década de 1980, de extrair melodias da fala. Desta vez, usando frases ditas pelos músicos do Grupo:

— Criei o som da aura porque eu sentia aquilo, mas queria provar na prática. É o verdadeiro cantar do ser humano. Tem os passarinhos lá em cima, os sapos, os cavalos, os bois... E tem o povo, a gente, nós. Todos nós cantamos, toda voz tem uma melodia. Se eu não tivesse nascido músico eu teria nascido música.

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